" Fantasia e realidade se misturam nesse lugar... "

domingo, 13 de março de 2011

Nem tudo que reluz é ouro

As casinhas tinham suas janelas, portas e paredes iguais. Os jardins estavam sempre bem cuidados e floridos, não existiam muros - a não ser o formado pelas plantas - e na rua os postes estavam milimetricamente distantes um do outro. Mesmo de perto, só se podia diferenciar aquelas moradias pelos números estampados na fachada.
Parece um quadro de um desses falecidos artistas famosos - pensou ela enquanto imaginava e fazia uma careta.
E assim, fechou o livro que tinha em mãos. Por muito tempo ele tinha estado aberto em seu colo, não porque ela estava lendo, mas porque gostava de demorar muito criando imagens para si mesma dos cenários onde os personagens estrangeiros deveriam morar. Ainda mais agora. Os anos passaram, ela já era uma senhora e o tempo lhe havia sido generoso. Ainda conseguia enxergar bem sem óculos e aproveitava-se disso para desfrutar dos livros que seu marido havia deixado para trás.
Recentemente porém, estava lendo com mais atenção, encucada com a conversa de seus netos. Dois deles vislumbravam um futuro no exterior e os motivos eram claros : ' Lá é outro mundo, a vida é incrível, as paisagens, as casas. Precisamos correr atrás da perfeição! ' Sempre havia sido uma pessoa moderna, sem preconceitos conscientes e andava pensando se eles estariam certos... Mas os netos de Laura não queriam ir para conhecer outro povo, para interagir. Eles queriam ser o 'outro' povo e falavam com um ar de superioridade sobre o novo lugar e ela sabia, isso a irritava. Talvez, pensou, eles tivessem sucesso se procurassem outra coisa, mas isso oras, não tem sentido. Ou talvez, só estou discordando porque nunca fui ao exterior ou por algum resquício de patriotismo ou orgulho, afinal, o Brasil é meu país, pertenço a essa cultura! E essa casa foi deles também, não é possível que achem tão ruim assim.
Laura levantou-se, colocou o livro na mesa e foi em direção a janela, sua mente ecoando agora apenas a palavra ' perfeição'... Já havia lido centenas de roteiros policiais, suspenses e dramas e não conseguia ver perfeição no interior de muitas daquelas casas que eram seus palcos de horror. A beleza que via era muitas vezes frágil, superficial e estava tão distante da vida dos seus netos... Abriu a cortina devagar - agora seus movimentos não eram tão velozes - e se deparou com a vista.
As casas eram destoantes, velhas como o tempo, tinha muros e nada de jardins. A rua estava descascada e alguns postes não tinham luz. O mar estava bem lá ao fundo, lindo como sempre, em frente aos coqueiros e coberto pela luz refletida da lua. Tudo respirava tranquilidade, as casas transpiravam a felicidade dos moradores que ali estavam - e eles quase não se importavam com os defeitos externos.
As lágrimas vieram aos olhos e um sorriso aos lábios. Agora ela entendia... Por pouco ficou em dúvida, seus netos quase a driblaram. Mas era sábia e vendo os carros passando, as pessoas andando, Laura lembrava da sua vida. As casas de lá também envelhecerão, as luzes também queimarão, a rua se descascará. Aí então eles vão entender que às vezes o que buscamos está bem a nossa frente e não queremos enxergar, pois é mais fácil ver defeitos no que está perto e sonhar com o mundo sem dificuldades que queríamos alcançar para nós - ela refletia. A vida sem erros não teria sentido e o que eles buscam, com certeza, está bem diante dos olhos. E ao enxugar o rosto e dar uma última olhada antes de ir se deitar ela tinha uma certeza, e foi só o que conseguiu sussurrar: Meus amores, aqui é onde mora a perfeição.




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